Quando se representa uma superfície por um modelo físico em material (por exemplo, papel) opaco e se marca a lápis nesse modelo um ponto, ele só é visível de um dos lados do modelo (note que perto de cada ponto da folha não há nenhuma dificuldade em identificar os dois lados). É possível então marcar do outro lado um ponto com lápis de outra cor na mesma posição do modelo. É legítima a pergunta de saber se o que assim se marcou é considerado, no objecto matemático que se está a representar - a tal superfície -, como um conjunto de dois pontos distintos:
(Coloque o rato junto à figura ou mova-a com ele.)
Note que a questão que colocamos
não está necessariamente associada à existência de
uma espessura do papel - que num modelo físico nunca será nula
- e tem sentido, mesmo que consigamos abstrair dessa espessura.
Antes de nos debruçarmos sobre esta questão, imaginemos dois outros
tipos de modelos:
1. o material é opaco, mas a representação
de um ponto é feita por uma minúscula picadela de uma agulha afiada;
o furo assim visível igualmente dos dois lados sugere neste caso
que o que se está a representar não consiste de dois pontos
distintos;
Deste ponto de vista, são realmente os dois últimos modelos que traduzem mais fielmente o conceito de superfície: em «cada posição» não se consideram dois pontos distintos na superfície que se está a pretender representar, mas apenas um. No entanto, em outros contextos, os matemáticos são por vezes levados a considerar aquilo a que chamam um revestimento duplo da superfície e aí a encararem o que se poderia descrever como «dois pontos por cada posição»; a descrição formalmente precisa está para além do nível a que este texto está neste momento a ser escrito, mas uma ideia intuitiva pode ser obtida, imaginando a superfície toda revestida «dos dois lados» (junto a cada ponto) por uma camada de tinta (suposta sem espessura). Esse revestimento de tinta pode ser ligado (ou conexo), formado de um só bocado, como é o caso da tira de Möbius no espaço usual, que não pode ser pintada «continuamente» com duas cores; ou pode ser formado por dois bocados desligados, duas películas de cores distintas que «não se tocam», como é o caso do cilindro no espaço usual.